Dor e ansiedade lideram o uso da cannabis medicinal no Brasil: pesquisa revela perfil dos pacientes e o potencial da terapia

Imagem atual: Médica explicando ao paciente como funciona o tratamento com cannabis medicinal durante uma consulta.

A cannabis medicinal no Brasil vem conquistando espaço na prática clínica. O aumento das evidências científicas, a maior aceitação entre profissionais da saúde e a ampliação do acesso aos produtos têm impulsionado o crescimento dessa terapia no país.

Um levantamento recente divulgado pela Cannect e repercutido pelo Panorama Farmacêutico revelou um retrato importante dos pacientes brasileiros que utilizam medicamentos à base de cannabis. Segundo a pesquisa, a ansiedade (38,5%) e a dor (25,4%) são as principais indicações clínicas, seguidas pela insônia (13,5%). Além disso, 65,3% dos pacientes são mulheres, demonstrando um perfil predominante entre os usuários dessa classe terapêutica.

Nesse cenário, os resultados ajudam a compreender como a cannabis medicinal vem sendo incorporada em diferentes especialidades médicas e levantam uma questão importante: quantos brasileiros convivem diariamente com doenças que poderiam ser manejadas com essa terapia, sempre mediante avaliação médica individualizada?

O que revela a pesquisa sobre cannabis medicinal no Brasil?

O levantamento mostra que as indicações variam conforme a faixa etária dos pacientes.

Entre os pacientes mais jovens, a cannabis medicinal é prescrita principalmente para ansiedade e epilepsia. Por outro lado, entre pessoas mais velhas, as prescrições estão mais relacionadas a doenças neurológicas, alterações cognitivas e dores crônicas.

Essa diferença demonstra que a terapia vem sendo utilizada em diferentes contextos clínicos, sempre considerando as necessidades individuais de cada paciente.

Da mesma forma, os dados reforçam uma tendência observada nos últimos anos: a cannabis medicinal deixou de ser uma alternativa restrita a poucos casos e passou a integrar, cada vez mais, a prática clínica baseada em evidências.

O acesso à cannabis medicinal no Brasil está em expansão

Nos últimos anos, o cenário regulatório brasileiro evoluiu de forma significativa, ampliando as possibilidades de acesso aos tratamentos com cannabis medicinal.

Atualmente, pacientes com prescrição médica podem obter produtos por diferentes vias, entre elas:

  • produtos autorizados para comercialização em farmácias pela Anvisa;
  • importação mediante autorização sanitária;
  • associações de pacientes autorizadas por decisões judiciais;
  • fornecimento por programas estaduais ou ações judiciais, em situações específicas.

Ou seja, apesar desses avanços, o acesso ainda não ocorre de forma uniforme em todo o país.

O estudo da Cannect mostra que 43,1% dos pacientes estão concentrados no estado de São Paulo, seguido pelo Rio de Janeiro e pelos estados da Região Sul. Essa distribuição evidencia diferenças relacionadas à disponibilidade de médicos prescritores, ao conhecimento sobre a terapia e às condições econômicas para aquisição dos produtos.

Ao mesmo tempo, cresce o número de profissionais habilitados para prescrever cannabis medicinal e aumenta a oferta de produtos regulamentados. Além da disponibilidade, também é fundamental considerar critérios de segurança e qualidade em produtos à base de cannabis, garantindo tratamentos mais seguros e confiáveis para os pacientes.

Dor crônica: um dos maiores desafios de saúde pública

A dor crônica representa uma das principais causas de incapacidade no mundo e também uma das indicações mais frequentes para o tratamento com cannabis medicinal.

Estudos epidemiológicos brasileiros estimam que entre 30% e 37% da população adulta convive com algum tipo de dor crônica, o que corresponde a aproximadamente 60 a 75 milhões de brasileiros.

Entre as condições mais comuns estão:

Embora nem todos esses pacientes sejam candidatos ao tratamento com cannabis medicinal, uma parcela pode se beneficiar da terapia, especialmente quando os tratamentos convencionais não proporcionam alívio adequado dos sintomas ou provocam efeitos adversos importantes.

Além disso, diversas revisões sistemáticas sugerem que os canabinoides podem contribuir para a redução da intensidade da dor, melhora do sono e da qualidade de vida em determinados perfis de pacientes. Mais recentemente, a aprovação do primeiro medicamento com THC para dor lombar crônica na Alemanha reforçou o avanço das evidências clínicas envolvendo a medicina canabinoide. Saiba mais no nosso artigo sobre o primeiro medicamento com THC aprovado para dor lombar crônica.

Consequentemente, a dor aparece como a segunda principal indicação entre os pacientes brasileiros que utilizam cannabis medicinal.

Ansiedade: milhões de brasileiros convivem com o transtorno

A ansiedade foi a principal indicação observada no levantamento da Cannect, representando 38,5% das prescrições. Os dados refletem as condições clínicas para as quais médicos têm realizado prescrições na prática clínica, não representando indicação formal para todas essas doenças.

O Brasil está entre os países com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 9% da população brasileira apresenta algum transtorno de ansiedade, o equivalente a cerca de 19 milhões de pessoas.

Além dos casos diagnosticados, milhões de brasileiros convivem diariamente com sintomas que comprometem diferentes aspectos da vida, como:

  • qualidade do sono;
  • produtividade;
  • relações sociais;
  • desempenho profissional;
  • bem-estar geral.

Nos últimos anos, diversas pesquisas passaram a investigar o potencial terapêutico do canabidiol (CBD). Quem deseja entender melhor as evidências disponíveis pode conferir nosso conteúdo sobre cannabis e ansiedade.

Embora as evidências ainda estejam em evolução e variem conforme o tipo de transtorno, alguns estudos apontam benefícios em pacientes selecionados, especialmente quando o tratamento ocorre com acompanhamento médico e associado às terapias convencionais.

Também é importante lembrar que diferentes formulações apresentam perfis farmacológicos distintos. Produtos com diferentes concentrações de CBD, THC e outros canabinoides possuem características específicas e devem ser prescritos de forma individualizada.

Insônia também está entre as principais indicações

A pesquisa identificou que 13,5% das prescrições estão relacionadas ao tratamento da insônia.

Estima-se que 30% a 40% da população adulta brasileira apresente sintomas de insônia, enquanto cerca de 10% a 15% convivem com insônia crônica.

Em muitos casos, as alterações do sono estão associadas justamente às duas condições mais frequentes observadas na pesquisa: ansiedade e dor crônica.

Por isso, pesquisadores também investigam o potencial de alguns canabinoides para melhorar parâmetros relacionados ao sono, principalmente em pacientes cuja insônia está associada a essas condições. Ainda assim, as evidências continuam em desenvolvimento e a indicação deve ser individualizada.

Isso significa que milhões de brasileiros deveriam utilizar cannabis medicinal?

Não necessariamente.

Embora os dados epidemiológicos demonstrem que milhões de brasileiros convivem com ansiedade, dor crônica ou insônia, isso não significa que todos sejam candidatos ao tratamento com cannabis medicinal.

Ou seja, a indicação depende de diversos fatores, entre eles:

  • diagnóstico correto;
  • histórico clínico;
  • resposta aos tratamentos convencionais;
  • possíveis contraindicações;
  • avaliação médica individualizada.

Ainda assim, os números demonstram que existe um contingente expressivo de pacientes que pode ser considerado potencialmente elegível para essa terapia, principalmente quando as abordagens tradicionais não oferecem controle adequado dos sintomas.

Além dessas condições, novas pesquisas continuam ampliando o conhecimento sobre o uso da cannabis medicinal em epilepsias refratárias, espasticidade, doenças neurodegenerativas, náuseas associadas à quimioterapia e algumas condições do neurodesenvolvimento.

O futuro da cannabis medicinal no Brasil

Por fim, o levantamento da Cannect mostra que a cannabis medicinal já faz parte da realidade clínica de milhares de brasileiros. Ansiedade, dor e insônia representam hoje as principais indicações terapêuticas, refletindo alguns dos maiores desafios de saúde pública enfrentados pelo país.

Ao mesmo tempo, os dados epidemiológicos sugerem que o número de pessoas potencialmente elegíveis para essa terapia é muito superior ao contingente atualmente tratado.

Com o avanço das pesquisas científicas, a ampliação da oferta de produtos regulamentados, o crescimento do número de médicos capacitados e a evolução do ambiente regulatório, espera-se que mais pacientes tenham acesso a tratamentos seguros, individualizados e baseados em evidências.

Mais do que acompanhar uma tendência de mercado, o crescimento da cannabis medicinal no Brasil representa uma oportunidade de ampliar as opções terapêuticas disponíveis para pessoas que convivem diariamente com doenças crônicas e buscam melhor qualidade de vida.

Perguntas frequentes sobre cannabis medicinal no Brasil

A cannabis medicinal é indicada para ansiedade?

A cannabis medicinal pode ser considerada uma opção terapêutica para alguns pacientes com transtornos de ansiedade, especialmente quando há indicação médica e acompanhamento adequado. No entanto, nem todos os casos são iguais. A escolha do tratamento depende do diagnóstico, do histórico clínico e das evidências científicas disponíveis para cada situação.


A cannabis medicinal pode ajudar no tratamento da dor crônica?

Sim, em alguns casos. Estudos sugerem que produtos à base de cannabis podem contribuir para o manejo da dor crônica, principalmente quando os tratamentos convencionais não proporcionam alívio satisfatório ou causam efeitos adversos importantes. Entretanto, a indicação deve sempre ser individualizada e feita por um profissional de saúde.


Quem pode utilizar produtos à base de cannabis no Brasil?

Pacientes com diferentes condições clínicas podem ser candidatos ao tratamento com cannabis medicinal, desde que exista indicação médica. Além disso, o acesso aos produtos depende da prescrição e das formas de aquisição regulamentadas pela legislação brasileira, como produtos autorizados pela Anvisa ou importação mediante autorização sanitária.


Qual é a diferença entre CBD e THC?

CBD (canabidiol) e THC (tetra-hidrocanabinol) são canabinoides presentes na planta Cannabis sativa, mas possuem características farmacológicas diferentes. Enquanto o CBD é amplamente estudado por seu potencial terapêutico em diversas condições, o THC apresenta propriedades específicas que podem ser indicadas em determinadas situações clínicas. Por isso, a escolha da formulação deve ser feita de forma individualizada.


A cannabis medicinal é segura?

Quando utilizada com prescrição médica e produtos de qualidade, a cannabis medicinal apresenta um perfil de segurança conhecido para diversas indicações. Além disso, é importante optar por produtos que atendam aos critérios de qualidade, rastreabilidade e regulamentação, reduzindo riscos e garantindo maior confiabilidade ao tratamento.


Onde encontrar informações confiáveis sobre cannabis medicinal?

Com o crescimento do interesse pela terapia, é fundamental buscar informações baseadas em evidências científicas e em fontes confiáveis. Por isso, médicos, pacientes e familiares devem consultar conteúdos produzidos por instituições e empresas comprometidas com a educação em saúde, além de conversar com profissionais habilitados para avaliar cada caso de forma individual.

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